EM LOUVOR DAS GAIVOTAS

    EM LOUVOR DAS GAIVOTAS
  
    Enquanto leio sonolento um romance
    de Camilo, um vento
    desabrido e alegre varre as dunas.
    Leva consigo toldos, roupas, crianças.
    Quando mais tarde a luz,
    esta tão leve luz meridional
    regressa, já as gaivotas
    são senhoras das areias
    e, minuciosas, de maneira exemplar,
    destroem tudo quanto é ainda
    a mal cheirosa memória humana,
    numa espécie de paixão –
    digo-vos.  

    Eugénio de Andrade
 Ofício de Paciência





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